sexta-feira, janeiro 25, 2013


Essas Pobres Mulheres Ricas

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Pois nunca, nunca se pode dizer que se viu de tudo ou que se chegou ao fundo do poço. Tudo é algo que a gente refaz diariamente, e nenhum poço tem fundo, como nos ensina a Band com o seu inestimável "Mulheres Ricas", o mais novo irreality show da tevê brasileira. "Mulheres Ricas" está aqui e agora, ecoando qual Michel Teló pelo mundo todo, ao ponto de o prestigioso jornal The Guardian ter dado matéria sobre as nossas pobres ricas e suas vassouras incrustadas de brilhantes.

O programa é um instantâneo de um pedaço desse Brasil que muda e ganha 17 novos milionários por dia, li em algum lugar. Nossos ricos andaram pelo NY Times também. Eles estão salvando a economia da Flórida, com suas viagens para comprar apartamentos em condomínios em Boca Raton, para superar a riqueza latina dos ricos venezuelanos, mexicanos, ex-cubanos que por lá gorjeiam para trazer Dolce & Gabbana a preço de bannana. Ah, os nossos ricos, exportando a si mesmos para poderem finalmente ostentar sem medo de sequestro.

Eles são ricos e agora em moeda forte. Até dias atrás eram pobres ou aspirantes a ricos. Agora que chegaram, não querem fazer bonito, querem se lambuzar, o que é sempre uma lambança e um exagero. No entanto, muita gente quer pagar para ver, ao ponto de o horror show estar já com a segunda temporada garantida, parece.

Scott Fitzgerald, estudioso da espécie, escreveu que "os muito ricos são gente estranha". Não era desses aí que ele falava. Era dos ricos com tanto dinheiro quanto aparato, os Hughes, Kennedy, Morgan, Carnegie, que propeliram o capitalismo americano e se encastelaram no poder com direito a excentricidades de altíssimo calibre, e não tolices de franguinhos que apenas ciscam. Os ricos deles, tanto os muito ricos quando os ricos, sentem um certo compromisso com o estilo e com a filantropia. Os nossos, necas.

Acontece que os nossos são brasileiros, e nós, brasileiros, somos muitas coisas, e elas incluem uma dose alta de uma breguice e outra de vulgaridade. Basta correr os olhos pela São Paulo dos bairros novos e ricos para ver o que é a arquitetura do nosso novorriquismo. Para comparar, olhem os bairros ricos da Argentina, do Chile, da Colômbia e mesmo Venezuela. É outra riqueza, ou outra estética. A nossa é mais ou menos isso que a gente vê nessas mulheres ricas em grana e pobres em espírito. Somos assim, como país, como sociedade. Lemos pouco, pensamos raso, noves fora as exceções, que marcam exatamente por serem exceções.

Somos crianças, agora endinheiradas. Somos infantis, agora podendo comprar os brinquedos e a loja. Somos desatinados, e, portanto, exageramos na dose, por todos os lados. Por isso a Itália teve um Júlio II, e nós um Edir Macedo. Já viram as catedrais do bispo?

Não sei o que representa esse nosso interesse coletivo por pessoas que não nos representam. Nosso público gruda vendo os mais ou menos pobres marombados e com consoantes duplas do BBB, e agora vendo essas mulheres e seus cérebros de escargot no "Mulheres Ricas". Uma parte da gente olha para aquilo com surpresa e riso. São ridículas essas ricas, deus do céu. Outra parte nossa olha com desejo, não para elas, que não parecem tão apetitosas assim, mas para a atitude de poder ir ali fora e comprar um jato particular para ir ao supermercado, e então comprar o supermercado e construir uma pista de pouso ao lado. A verdade é que, forçados a uma vida de contenção, admiramos os exageros, não importando muito de onde venham e para onde deixem de ir. "Mulheres Ricas" é engraçado exatamente pela incapacidade dessas mulheres em produzir humor, ao menos por vontade própria. Elas se levam a sério, na crença de que dinheiro é igual a alguma forma de sabedoria. Não é.

Os maridos delas é que devem ser os ricos de verdade, imagino. Elas devem ser apêndices de rico, o que é, acredito, um apêndice rico, mas um apêndice. Duvido que elas tenham capacidade própria de gerar dinheiro, embora se mostrem usinas na hora de gastar.

Penso que no califado árabe, alguém me contou, o califa, sultão, que seja, tomava o primeiro filho como herdeiro e o segundo como estepe. Houvesse um terceiro, para não precisar fazê-lo sumir, colocava em um palácio dos prazeres, onde todos os seus desejos eram atendidos e ele se tornava um tolo desprovido de noção ou competitividade. Isso era seguro para todos, ao custo de uma vida idiotizada.

Não sei, nem nunca vou saber o que acontece de verdade quando podemos comprar tudo. Escritores, mesmo mundialmente conhecidos em partes da Grande São Paulo, como esse que vos escreve, não chegam nem perto desse poder de fogo. Acho que a ideia não é nada má em si, e penso que os meus milhares de leitores testam a sorte na Megasena exatamente por isso.

A se julgar pelo efeito do dinheiro absoluto sobre essas "Mulheres Ricas", os sultões estavam certos. E é isso o que eu creio que se pode dizer sobre o programa, sobre nós mesmos, apenas isso, e mais nada.

Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

Texto e ortografia do próprio

32 comentários:

  1. Bom diaaaaaaaaaaaaaa!
    Menina, adorei o seu post!! Eu não perco o meu tempo assistindo esse programa, nem a Fazenda, muito menos o BBB.Acho de um tremendo mal gosto.
    bjossssssss.

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    1. Verinha, boa tarde, agora! eheheheh

      Pois é! Que país lamentável. Depois reclamam da "fama" lá fora. Por que será?
      Beijos

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  2. É... lendo assim, parece muito superficial e sem conteúdo nenhum esses dessa situação.
    Aquele programa eu nunca na minha vida assisti, nem para ver como é, já que ouvi falar dele no twitter uma vez. Aí procurei na net pra ver o que era mulheres ricas e me deparei com a descrição ridícula, nem me dei ao trabalho de conhecer.

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    1. Jane, pois é. Infelizmente essas são as escolhas de um % elevado de brasileiros. Lamentável.
      Beijos

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  3. Concordei em tuuudo! Adorei este trecho [...]"a gente vê nessas mulheres ricas em grana e pobres em espírito. Somos assim, como país, como sociedade. Lemos pouco, pensamos raso, noves fora as exceções, que marcam exatamente por serem exceções." Esta é uma ótima leitura!

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    1. Que bom! Menina, triste realidade. Beijos

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  4. É lamentável onde um país com tanta miséria queira sustentar uma "realidade de ricos" , onde na verdade são pobres, muito pobres de espírito!!

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    1. E não é? Brasil, País de Todos! Todos quem?

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  5. Oi Edi,dinheiro não traz sabedoria. Penso que é por isso que temos programas como este. Bjs

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    1. Pois é. As coisas funcionam exatamente assim.
      Beijos

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  6. ótimo texto semre o ter é mais imprtante que ser .eu não assisto porque não gosto mas tenho curiosidade.

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  7. Ai que massa, ainda não tinha ouvido falar em relaçao a esse programa.
    Adorei a dica!
    Bjs

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  8. Nossa texto muito bem escrito, disse tudo!!
    Tambem acho que integencia não é sinonimo de dinheiro

    um beijao

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    1. O que é o dinheiro sem a sabedoria e a atitude correta? Papel na mão de gente fútil e ignorante....

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  9. Este programa é muito ruim mesmo. Sabe que até tentei assistir por gostar do humor de uma ou outra? Mas, depois, concluí o mesmo de outros programas: pra quê assistir? Não vou dar audiência a este tipo de programação vulgar, vazia e que até humilha e denigre a imagem das próprias companheiras. Ridículo! Foi assim que deixei de assistir novelas, seriados e outros programas. Aproveito pra economizar a energia da televisão pra ler ou rezar.

    Beijo

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    1. Eu sou da mesma opinião Adriana. Fico muito feliz de ter leitoras como você. Esse tipo de baixaria na TV, não me pega mesmo.
      Beijos

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  10. Nunca assisti também!
    Adorei o post muito bom o texto amiga!
    Bjs

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    1. Bacana né, Jana? Futilidade na TV, futilidade na vida real, esse tipo de gente não merece nossa audiência. Beijos

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    2. É isso aí amiga, não merecem mesmo!
      Bjs

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  11. Concordo totalmente com a Adriana.
    É um mundo paralelo, sei lá...
    Aqui na vida real, a gente trabalha, cuida dos filhos, maridos, economiza para comprar nossas coisinhas, enfim...
    Algumas pessoas se deslumbram tanto, que passam a querer viver, uma vida como as da tv e as coisas simples e felizes da vida, perdem o seu valor.

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    1. Nat, adorei o que disse. Elas não vivem a realidade. Elas procuram um homem rico, de posse, pra fazer pose, tomar espumante o dia todo e acham que com isso a vida vai pra frente, evolui.... Coitadas....
      Beijos

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  12. tô deixando esse post pra depois e depois... pq eu acho que vou escrever mto sobre ele.. hahahaa

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    1. Escreva por e-mail que publico! Beijos

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  13. Inteligentissimo texto,pra mim essas mulheres ricas não passam de pessoas futeis,que precisam mais do que dinheiro para suprir o vasio dentro delas.Bjs

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    1. Disse tudo em sábias palavras. Adorei! Obrigada Alyne! Beijos

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