quinta-feira, agosto 17, 2017


Violência Doméstica

A partir de hoje, começarei a relatar tudo o que vivi, principalmente depois da turbulência que passei, e que me fez ainda mais forte e confiante. 

Vocês acompanharam a situação trágica que vivi, que começou com a separação ainda grávida de 05 semanas do Éric, o posterior sumiço dos meus filhos, e a consequente dor de ter que enfrentar dias e mais dias sem notícias das crianças. Fui exposta a uma luta diária, na qual precisava manter a calma, para não perder o bebê que carregava no ventre, ao mesmo tempo em que a vontade era de sair à procura dos meus dois filhos, meus tesouros, duas partes de mim que foram arrancadas com crueldade e rancor. 

Foram dias e mais dias de tortura, de sofrimento, de angústia, de insegurança e de muito medo. A separação em si já foi traumática, justamente por ter sofrido violência doméstica, e depois disso, ainda ter que conviver com a ausência do Dudu e da Emmie, para mim, representava o maior sofrimento que uma mãe poderia passar na vida.

Sem dúvidas, os sete anos que permaneci casada, me serviram de lição. Neste tempo, convivi com as mais variadas formas de opressão, de chantagens, de tortura verbal, a qual me colocava numa situação inferior, que me fazia sentir-se reclusa, e que por noites e noites, me colocavam a pensar, após longas crises de choro e de dor. 

Não há nada pior do que viver sendo controlada, não ter opinião própria, não poder expor aquilo que realmente está sentindo e ficar isolada do resto do mundo.

Até então, na minha concepção, a união entre duas pessoas, representava um voto de confiança, de credibilidade, de afeto, amor e segurança. Mas para mim não foi.

Sempre me vi violentada, oprimida, e mesmo assim, tinha esperanças de que todo aquele pesadelo acabasse, e que o "conto de fadas" começasse. 

Casei de forma repentina, sem pensar, sem ter espaço para analisar se de fato, aquela seria a melhor situação para mim. Logo após, engravidei do Eduardo, e para mim, aquela benção seria um sinal de recomeço, de novas chances, de uma nova visão, não somente para mim, mas para aquele que estava ao meu lado.

As coisas não aconteceram bem assim, e se antes era obrigada a fazer coisas que não gostava, para agradar e manter a paz, depois do nascimento do meu primogênito, também tive que enfrentar opiniões, críticas e pressões da família oposta. Passei por situações críticas e humilhantes, principalmente por morar com a família dele. Isso porque quando casei, fiquei morando ali, não por minha vontade, mas porque não tive escolha. Não me refiro ao lado financeiro, mas ao querer da outra pessoa, e o que era viável e confortável para ela, e nunca para mim. A sensação sempre foi a de não viver a minha vida, mas viver me moldando em função de terceiros, e de teimarem em querer transformar a minha vida, de forma que ficasse adequada para eles. Eu não tinha voz própria, eu não podia expor sentimentos, não tinha a chance de mostrar que um relacionamento assim machuca, magoa e desgasta. 

Por tantas e tantas vezes, implorei para sair daquela casa, daquela vida, e recomeçar de forma mais humilde, porém honesta e com respeito. 

Abri mão da minha carreira, das minhas opiniões formadas, abri mão de mim.

Se antes, sempre tive uma vida independente e fui sempre muito dona de mim, naquele instante, não era ninguém. Comecei a trabalhar muito jovem, ainda com 14 anos. Aos 18 já morava sozinha, estava conquistando o meu espaço, desbravando a minha capacidade profissional, intelectual, e era tudo que desejava ainda tão jovem mas muito responsável. Aos poucos fui conquistando o meu espaço, trabalhava muito, não tinha hora pra chegar em casa, mas levava uma vida digna e feliz. E quando constatei que havia perdido tudo que tanto lutei para conquistar, me senti impotente, me senti como fosse ninguém. 

Fiz o que pude e o que não pude para não passar isso para o meu bebê, um anjo que Deus colocou na minha vida, para me ensinar o que é receber amor verdadeiro e para mostrar o que é ter o coração batendo fora do peito, de forma nunca vivida antes da maternidade. 

Como não estava trabalhando e havia sido proibida, comecei a procurar formas alternativas de conseguir meu sustento próprio, e assim comecei a vender produtos no Mercado Livre, me virando como podia, dentro de casa e durante a madrugada, sendo este, o único horário no qual, conseguia respirar e colocar a cabeça para funcionar sem pressão e opressão. 

Determinada, usei aquela situação para me desligar do sofrimento, mesmo que de forma momentânea, e consegui seguir em frente com as vendas. Passado um tempo, sentia a necessidade e a falta de ter com quem conversar, alguém "fora da bolha", que me entendesse, que me incentivasse, e antes de mais nada, que não me criticasse. E assim nasceu o Mamães Vaidosas. Foram nas postagens e interação com as pessoas que se aproximavam de mim de forma virtual, que me senti "acolhida", e decidi que aquele pequeno e iniciante blog, serviria como um ombro amigo, onde conheci milhares de mães e mulheres, que me deram total credibilidade e muito orgulho em prosseguir escrevendo, interagindo e "existindo" para elas. 

Desde o início blog, eu interagia de forma ponderada e sempre pisando em ovos, sem relatar absolutamente nada do que realmente acontecia na minha vida. Isso porque era refém de um relacionamento controlador e doentio, muitas vezes passando a imagem de que a minha vida parecia perfeita, quando na realidade, eu estava sofrendo e me sentindo afogada em meio às próprias lágrimas.

E assim prossegui, permanecendo calada até alguns dias após sumiço dos meus filhos, porque além de sempre ser reservada e discreta, jamais aceitariam que eu expusesse a verdade, sem sofrer com as consequências.

Pensando pelo lado correto e pela ordem natural da vida, o relacionamento do casal, deve ser tratado e resolvido de forma intima e preservada. Mas a partir do momento, que você não tem para onde correr, e vê-se acuada sem saber para quem pedir socorro, sendo bombardeada diariamente com palavras e atitudes agressivas, não apenas do seu parceiro, mas de entes da família deste, a figura começa a mudar, principalmente quando as ameaças colocam a sua vida em risco, e o desespero toma conta do seu eu.

E mesmo diante do medo, das dificuldades e da dor, eu fiz absolutamente tudo que pude, para tentar mudar a situação, e ficava sempre pensando, se no momento em que saíssemos daquela casa, aquele que me escolhera como sua esposa, mudaria a sua postura e atitude, e começaria a me enxergar como sua amiga, esposa e confidente, e não como um objeto pessoal e um alvo fácil para ataques.

A luta continuava, e durante este caminho, acabei engravidando da Emmie. Neste momento, não cabe contar em detalhes, mas imaginem que diariamente eu vivia todos os tipos de violência possíveis. 

Na segunda gestação, mais uma vez, me vi com uma luz no fim do túnel, com mais uma chance de recomeço e de sair daquele inferno e ser feliz. E mesmo sofrendo horrores dentro daquela casa, continuei confiando que tudo mudaria, e que a vida tão merecida para a minha família, em breve chegaria. Mas não aconteceu! Continuamos a morar ali, e eu e Dudu continuamos a ser manipulados e sofrer com as consequências. 

Agora imaginem uma mãe, que no intuito de proteger o seu primogênito e o bebê que carregava no ventre, continuava se anulando, e aceitando as ofensas e agressões, achando que aquela seria a única saída, a fim de proteger os seus e permanecer viva. Só que as coisas nem sempre acontecem como queremos, e com 32 semanas de gestação, mais uma vez fui alvo de ataque e de fúria, até o ponto da bolsa estourar, e minha filha pagar pelos atos descontrolados daquela família. E o pior não foi isso, o pior foi ter que ouvir que estava fingindo, que estava fazendo xixi nas calças, e que não aguentava pressão. 

Naquele momento, a dor da violência se fundia com a dor do trabalho de parto antes do tempo. Fui para o hospital, e não pensem que a situação foi controlada ali. A falta de noção e de respeito, continuou falando mais alto, e mesmo sem sequer saber se Emmie estaria viva ou não, continuei a ser insultada, em pleno hospital. A espera foi longa, até ter a notícia de que a minha filha teria que ser arrancada do meu ventre antes do tempo, e que para tal, eu precisaria ser preparada e receber medicações, para acelerar o processo de amadurecimento do seu pulmão, na incerteza de que como ela reagiria e viria ao mundo.

Foram três longos dias de espera, de dor e de sofrimento. Se por um lado fui afastada bruscamente do meu primogênito, sem antes prepara-lo para o que estava acontecendo, no leito do hospital a tormenta só aumentava. E chegou o dia do "nascimento" da minha filha, da minha guerreira que estava sofrendo desnecessariamente, as consequências da falta de limite do ser humano, do descontrole, da raiva, da loucura.

Emmie nasceu com 33 semanas, abaixo dos dois quilos, e encaminhada diretamente para a UTI. Agora fico me perguntando, com tudo que ocorreu do início do relacionamento até essa situação desesperadora e pecaminosa, como eu não consegui me libertar da tortura e daquele relacionamento doentio? A sensação era de ter perdido a força, de ter se entregado completamente ao medo, e ter "perdido a visão". Naquele momento, eu vi que não existia mais, eu apenas sobrevivia, dias após dia.

Minha pequena foi muito guerreira, não se entregou, e muitos dias após, voltamos para aquela casa, para aquele mesmo lugar.... E foi ali que decidi dar um basta naquele "casamento comunitário". Propus que ele abrisse um negócio próprio, e que locássemos um imóvel, para que antes de mais nada, Emmie pudesse ser preservada naquele momento de recuperação e fortalecimento, indispensável para sua sobrevivência. E da mesma forma que pensava na minha princesa, desejava muito que Dudu tivesse uma vida tranquila, longe daquele ambiente pesado e sombrio. Naquele instante Deus me ouviu, e as coisas começaram a caminhar. Conseguimos mudar, e por um período, confesso ter acreditado que as coisas mudariam, e que enfim, eu voltaria a viver. Mero engano, pois com o passar dos dias, da abertura do restaurante e dos conflitos familiares entre eles, justamente por não aceitarem que saíssemos da zona de controle daquela casa, tudo voltou ao que era antes. 

Eu voltei a ser uma pessoa sem opinião própria, vivendo em função de terceiros e tentando manter as aparências no restaurante. A violência voltou, e com ele, o sofrimento, a dor, a ameaça, assim me colocando numa situação nula novamente, com medo do que viria dali pra frente, principalmente pelos meus filhos. E realmente as coisas foram piorando, a situação foi ficando cada vez mais tensa, as agressões ainda mais constantes, até que quando "abri os olhos", ja haviam se passado um ano e alguns meses. 

Tirando forças do imaginável, me controlei de todas as formas possíveis, e só conseguia pensar nos meus dois filhos. Mal sabia eu, que no ventre já carregava o terceiro, e que com ele ali, ainda em formação, passaria pelos piores dias da minha vida. E foi aí que depois daquele episódio traumático, dolorido e inadmissível, coloquei um fim naquela situação, e protegida pela Lei Maria da Penha, me libertei do cárcere privado. Gostaria realmente que tudo tivesse cessado ali, mas como vocês bem sabem, não foi bem assim.

Com a separação veio a retaliação, a mentira, o sequestro dos meus filhos, e tudo mais que passei, até te-los novamente em meus braços.

E se hoje estou livre disso tudo, antes de mais nada, tive que pagar um preço muito alto por algo que já me pertencia -  a minha própria vida!

Por isso, passado mais de um ano da minha "libertação", hoje com muita coragem, deixo este relato, para que sirva de exemplo para quem sofre o mesmo! Mulher, mãe, amiga,  entenda que se no relacionamento, há quaisquer indícios de violência verbal, física, sexual, ou seja qual for, não é saudável, é doentio, e para esta doença, só existe uma saída, a denúncia e a separação!

Não tenha medo da separação, tenha medo de continuar num relacionamento agressivo, e aí sim, arcar com as consequências! Nós mulheres, nos refazemos a partir do momento que dominamos a nossa força interior, e damos um basta naquilo que nos anula. E no caso de um casamento agressivo, não há nem o que se pensar!

Elimine a dor e dê força para o amor, o amor que existe dentro de você, que te faz ser melhor pelos seus, e incansavelmente, a faz lutar por eles! 

Por aqui a luta continua, com muito mais garra e AMOR!

E o que dizer da alegria e orgulho, por ser mãe de três anjos abençoados, que não me deixaram desistir, mas acreditar ainda mais em MIM, e no meu potencial? Benção, absolutamente, benção!

Beijos

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